A boda que fazia o avô chorar a rir

Diz a mãe que o avô Guilherme chorava sempre a rir quando contava a história de um casamento a que fora em pequeno. Talvez tenha sido o único, tirando o seu.

A família – Romano, Engrácia e cinco filhos (sem contar com o ilegítimo) – era tão pobre que, mesmo que esta boda de ir às lágrimas tivesse sido a meio da semana, o avô Guilherme não teria tido de faltar à escola. Nunca lá foi. Morreu sem saber ler, embora tenha aprendido a fazer contas com desembaraço. Até trabalhou por conta própria.

É possível que o bisavô Romano tenha ficado bêbedo logo depois da missa. Num dia normal, se ninguém fosse buscá-lo, ele dormia na taberna. Era ali que gastava todo o dinheiro que a Engrácia lhe dava para comprar o peixe que depois revenderia na praça. Quando o vício era maior do que a carteira, ficava a dever. Ainda hoje, garante a mãe, os velhos mais velhos daquela zona se lembram dele – e não é com amizade. O homem era um ilustre aldrabão.

A roupa para a festa foi oferecida às crianças pelos padrinhos de cada um. Os meninos vestiam um fato escuro, com finas listas brancas. As meninas, a mãe não sabe. Não era a roupa delas que fazia o avô Guilherme chorar a rir, mas o detalhe que a atenção ao aprumo tinha deixado escapar.

É que mais bonito do que ver aquelas crianças – que nos outros dias todos nem calçavam sapatos – com roupa de gala era o espectáculo a que se assistia nas elegantes listas brancas: um efervescente tropel de piolhos a correr ombros, braços e peitos abaixo.