O descasamento

Ele tinha à frente uma pilha de meloas espanholas. Ela tinha-o a ele, sentado numa cadeira de rodas, vestido com um fato de treino coçado, calçado com sapatos gastos. E tinha as meloas espanholas, claro. Estavam os dois de costas para os verdes e para os tomates. Estavam os dois – estão há anos – de costas um para o outro. Ela estava de costas para ele com um casaco de malha amarelo.

Quero meloas.

Se queres meloas tens de ser tu a escolhê-las. Eu não sei escolher meloas.

Já te disse para escolheres as meloas. O teu trabalho é fazeres o que eu mando. Já que não fazes mais nada, fazes o que eu mando.

Ela escolheu as meloas. É certo que não apanhou nenhuma doce. Eu sei escolher meloas e a minha era um pepino. Vai ouvi-lo em casa, à mesa.

Esta meloa é um pepino.

Escolhesses tu, esticasses o braço.

Seguiram, de costas para mim. Ela com o cabelo apanhado no alto da cabeça, ele escondido e empurrado por ela. Caminharam num desamor pegado por todos os corredores. Encheram o carrinho de mão aos encontrões.