O desamor da janela da frente

Foi quase tempo nenhum. Só o tempo de me maquilhar. Menos que isso: ainda nem tinha chegado ao rímel, e já ela a fazer eco.

Mas porquê? Eu dei-te tudo! Eu faço tudo! Eu estou sempre aqui para ti!  

Havia uma novela na rua. Fui ver. Saía da janela da frente, escancarada. A mesa estava posta, os copos eram de vinho. Tinham tinto – pouco, quase no fim. Ele estava calado, sentado do lado oposto ao dela, os dois de perfil para mim. Ela tinha os lábios pintados de vermelho, os olhos borrados de preto e o cabelo, aos caracóis, volumoso, solto. Gritava com gestos largos. Chorava.

Eu vivo para ti e tu agora dizes-me que não queres? E dizes-me que o problema és tu?

Ele calado, a querer deixá-la. Ela a insistir, incrédula, inconsolável. E o João a censurar-me, a puxar-me, a descolar o meu nariz da brecha do cortinado.

Joana, anda embora. Deixa as pessoas na vida delas.

Saí de casa contrariada. Bati a porta a torcer para que ela ganhasse, para que o convencesse. Aquela luta de amor já era a minha. Ainda a ouvi gritar enquanto caminhava para o carro. Quis tocar à campainha e perguntar ao calado o que é que a moça tinha que não se pudesse amar, dizer-lhe que a desculpa do não és tu sou eu já tem barbas. E acalmar o desespero da rapariga. Não fiz nada disso. Fui à minha vida.

Esta semana voltei a ver aqueles cabelos na mesma janela. Ela voltou. Tinha o mesmo copo na mão, estava a rir-se. Havia festa. Afinal ele não a deixou. Ela ganhou. E o mais certo é que também se case antes de mim.