A boda que fazia o avô chorar a rir

Diz a mãe que o avô Guilherme chorava sempre a rir quando contava a história de um casamento a que fora em pequeno. Talvez tenha sido o único, tirando o seu.

A família – Romano, Engrácia e cinco filhos (sem contar com o ilegítimo) – era tão pobre que, mesmo que esta boda de ir às lágrimas tivesse sido a meio da semana, o avô Guilherme não teria tido de faltar à escola. Nunca lá foi. Morreu sem saber ler, embora tenha aprendido a fazer contas com desembaraço. Até trabalhou por conta própria.

É possível que o bisavô Romano tenha ficado bêbedo logo depois da missa. Num dia normal, se ninguém fosse buscá-lo, ele dormia na taberna. Era ali que gastava todo o dinheiro que a Engrácia lhe dava para comprar o peixe que depois revenderia na praça. Quando o vício era maior do que a carteira, ficava a dever. Ainda hoje, garante a mãe, os velhos mais velhos daquela zona se lembram dele – e não é com amizade. O homem era um ilustre aldrabão.

A roupa para a festa foi oferecida às crianças pelos padrinhos de cada um. Os meninos vestiam um fato escuro, com finas listas brancas. As meninas, a mãe não sabe. Não era a roupa delas que fazia o avô Guilherme chorar a rir, mas o detalhe que a atenção ao aprumo tinha deixado escapar.

É que mais bonito do que ver aquelas crianças – que nos outros dias todos nem calçavam sapatos – com roupa de gala era o espectáculo a que se assistia nas elegantes listas brancas: um efervescente tropel de piolhos a correr ombros, braços e peitos abaixo. 

O descasamento

Ele tinha à frente uma pilha de meloas espanholas. Ela tinha-o a ele, sentado numa cadeira de rodas, vestido com um fato de treino coçado, calçado com sapatos gastos. E tinha as meloas espanholas, claro. Estavam os dois de costas para os verdes e para os tomates. Estavam os dois – estão há anos – de costas um para o outro. Ela estava de costas para ele com um casaco de malha amarelo.

Quero meloas.

Se queres meloas tens de ser tu a escolhê-las. Eu não sei escolher meloas.

Já te disse para escolheres as meloas. O teu trabalho é fazeres o que eu mando. Já que não fazes mais nada, fazes o que eu mando.

Ela escolheu as meloas. É certo que não apanhou nenhuma doce. Eu sei escolher meloas e a minha era um pepino. Vai ouvi-lo em casa, à mesa.

Esta meloa é um pepino.

Escolhesses tu, esticasses o braço.

Seguiram, de costas para mim. Ela com o cabelo apanhado no alto da cabeça, ele escondido e empurrado por ela. Caminharam num desamor pegado por todos os corredores. Encheram o carrinho de mão aos encontrões.

O desamor da janela da frente

Foi quase tempo nenhum. Só o tempo de me maquilhar. Menos que isso: ainda nem tinha chegado ao rímel, e já ela a fazer eco.

Mas porquê? Eu dei-te tudo! Eu faço tudo! Eu estou sempre aqui para ti!  

Havia uma novela na rua. Fui ver. Saía da janela da frente, escancarada. A mesa estava posta, os copos eram de vinho. Tinham tinto – pouco, quase no fim. Ele estava calado, sentado do lado oposto ao dela, os dois de perfil para mim. Ela tinha os lábios pintados de vermelho, os olhos borrados de preto e o cabelo, aos caracóis, volumoso, solto. Gritava com gestos largos. Chorava.

Eu vivo para ti e tu agora dizes-me que não queres? E dizes-me que o problema és tu?

Ele calado, a querer deixá-la. Ela a insistir, incrédula, inconsolável. E o João a censurar-me, a puxar-me, a descolar o meu nariz da brecha do cortinado.

Joana, anda embora. Deixa as pessoas na vida delas.

Saí de casa contrariada. Bati a porta a torcer para que ela ganhasse, para que o convencesse. Aquela luta de amor já era a minha. Ainda a ouvi gritar enquanto caminhava para o carro. Quis tocar à campainha e perguntar ao calado o que é que a moça tinha que não se pudesse amar, dizer-lhe que a desculpa do não és tu sou eu já tem barbas. E acalmar o desespero da rapariga. Não fiz nada disso. Fui à minha vida.

Esta semana voltei a ver aqueles cabelos na mesma janela. Ela voltou. Tinha o mesmo copo na mão, estava a rir-se. Havia festa. Afinal ele não a deixou. Ela ganhou. E o mais certo é que também se case antes de mim.

O tio do namorado da filha que o Passos Coelho teve com a moça das Doce

Um título deste tamanho é um disparate.

O autocarro 701 pára em Campo de Ourique. O 742 passa perto de Campe d’Órique. Corre, aos solavancos, a rua Maria Pia. Entre as 9h e as 11h tem pelo menos um passageiro frequente.

Eu cheguei a beber dez copos de leite ao pequeno-almoço. Pergunta à minha madrinha, a ver se não é verdade.

Viaja de costas, sentado a três passos do motorista. É a primeira vez que o vejo acompanhado. Imagino que a mulher seja amiga da madrinha, a mulher que sabe bem que ele chegava a beber dez copos de leite ao pequeno-almoço. O homem veste uma camisola de manga curta do Sporting e usa óculos de sol espelhados. Ao pescoço tem um cachecol da selecção, cruzado, preso com um alfinete-de-ama. Tem sempre um boné fluorescente e um relógio dourado. Talvez ainda não tenha 50 anos.

O meu sobrinho ‘tá bom. Namora com a filha que o Passos Coelho teve com a moça que era das Doce. Estou convidado para o casamento. Quando houver casamento. Mas vai haver.

E ele há-de ser convidado, tem a certeza. Porque eles hão-de casar, que aquilo é a sério.

Usam alianças de comprometidos. O meu sobrinho até ofereceu ao sogro – que ainda não é mesmo sogro – uma garrafa de vinho do Porto.

Isto foi pelo Natal. Com uma prenda destas, o namoro só pode ser sério. E se o sobrinho lhe conta estas coisas, é porque vai convidá-lo para o casamento. Nessa altura, o tio não vai ser apanhado desprevenido: tem esta roupa aprimorada para todos os dias, mas já pôs de lado uma ainda melhor para a boda – jamais iria de calções. Tomara que haja copos de leite no bufê.

O bordado do meu vestido de noiva

Caminhava apressada. Trazia três carcaças num saco de plástico e um ramo de flores do campo na mão que sobrava. Vinha longe mas já a rir-se, a preparar-se. Apostei que vinha conversar, mesmo que aquela chuva insistisse – ganhei esta história.

Olá, boa tarde! Já vão embora? É uma pena não ter aqui a chave da minha oficina, gostava de vos mostrar os meus bordados.

Idalina é de Santiago do Cacém. Já passou dos 80 anos. Chegou ao Lousal depois de casar. O marido veio trabalhar para a mina, ela veio com ele.  

Eu também lá trabalhei, mas era coisa leve. Era escolher o minério, com as outras mulheres. A minha paixão foram sempre as artes manuais e a escola.

Não chorou com os homens – nem como eles – quando a mina fechou. Dedicou-se aos bordados, a fazê-los e a ensinar os mais novos. E nunca envelheceu.

Tenho três filhos criados, tudo doutores.

Mas não tem idade para ter tido nenhum.

Até o senhor da escola onde dou aulas me diz: “A dona Idalina não morre!”

Ela tem, em cima de um corpo velho, uma cabeça jovem. E tem, por baixo das rugas, uma cara de menina. Idalina não tem nem mais um ano do que eu, mas disfarça: traz uns colãs grossos, castanhos, e uma saia de napa, de avó, como a camisola de lã cinzenta, com flores desenhadas.

Conta, apaixonada e enérgica, o gosto pelo ensino, de que não tira folga, e pelos bordados.

Cópias de obras com centenas de anos. Devia ver, menina, devia ver. Agora o mundo é muito pequeno, é tudo ali ao fundo. Veja lá que eu estou a fazer trabalhos para a França e para a Guatemala. E chega lá tudo muito depressa! A gente põe-se em todo o lado num instantinho.

A conversa acabou com a promessa de um regresso. É que a Idalina vai fazer um lindo bordado no meu vestido de noiva.

Até já o tenho na cabeça.

Vai bordar o meu vestido – assim que deixarmos de ser meninas.

Joana.

O bigode da prima Glória

Ao longe percebia-se bem que não era casamento de gente fina. Ao perto percebia-se ainda melhor. A prima Glória casou com o primo Jaime já mais para mulher feita do que para moça, numa cerimónia simples, como o vestido de noiva – que nem era vestido, nem era de noiva – que ela usou.

Garante a avó Alexandrina, nova ao tempo do enlace, que da união nunca saiu fortuna. A prima Glória era uma mulher de pouca sorte (também) no desenho das feições. A vida compensara-a no desenho da figura.

Era jeitosa de corpo, é preciso dizer as coisas como elas são.

Trabalhou quase toda a vida na taberna que montou com o primo Jaime, no Seixal. O primo Jaime só via de um olho e começou esta história num fato de fazenda, humilde e emprestado, mas composto.

A prima Glória tinha medo de andar de carro, nunca aceitou uma boleia do meu pai. A prima Glória nunca foi a prima Glória para o meu irmão, foi sempre a Pigó.  E apareceu na minha vida tirada de um embrulho de fotografias numa gaveta desordenada – a defunta arrumada junto ao defunto, os dois em tons de sépia e colados.

Pelas minhas contas, passaram anos num namoro sôfrego e embrenhado no escuro daquela gaveta. Pensei muito nisto e agora sei que ali só pode ter acontecido muita pouca vergonha: quando a minha mãe os encontrou, naquela tarde de arrumações, era muito difícil dizer quem dos dois tinha mais bigode.

Joana.

A boda da avó Manuela

Foi em 1967. Ou talvez em 66. Em Agosto, acha ela. 18 ou 19, ou o que foi.

Foi há muito tempo, filha.  

Foi a meio dos vintes dela. E foi noutro tempo. Não há nenhuma fotografia da avó Manuela vestida de noiva, de braço dado com o avô Rato – porque não havia fotógrafo e porque não houve vestido de noiva. A avó casou com o saia-casaco cor-de-rosa que a tia Teresa lhe emprestou. Casou grávida da tia Bibi. Mas não casou à pressa, vivia com o avô há três anos. E só casou porque quis. Porque quando não quis – com o pai do pai, o avô Fernandes – não casou.

Eu ainda não conseguia sustentar-me e não estava para depender de um homem. Era o que faltava. E depois olha.

Disse que não. O pai nasceu em 1960. A avó Manuela era muito nova e muito magrinha. Muito mais magrinha do que eu, a mana e as primas. Tinha um cabelo muito lindo, brilhante, todo às ondas.

E o avô Rato pediu-te em casamento?

Pediu-me cá agora em casamento. Nem em namoro. Conhecemo-nos e fomos lidando, lidando. Ele deixou uma namorada que tinha por minha causa. E gostava muito do teu pai, levou-o logo para o apresentar à mãe dele. Fomos sempre muito amigos. E eu também tinha muitos pretendentes. Cheguei a receber pedidos depois de já estar casada. Uma vez veio aqui um moço dizer-me: “Ó Manela, disseram-me que tu ‘tavas solteira, eu sempre quis casar contigo”. E eu disse-lhe: “Disseram-te mal, que eu já casei”.

Era uma quarta-feira, isso é certo. Era o único dia de folga do avô e da avó no restaurante. O tio Tói não chegou a tempo de ser o padrinho, atrasou-se. Foi o tio Domingos, escolheu-se ali, à porta do notário. Ou talvez lá dentro.

Foi há muito tempo, filha.  

E foi noutro tempo. Não houve lua-de-mel. Nem festa. Só almoço. Em casa, na Rua Serpa Pinto, em Almada. Frango guisado com batatas cozinhado pela avó Manuela, que me deu o privilégio de ter dois avós paternos.

Joana.

Todas quê?

O amor é extraordinário. O meu é. Mas o amor – o meu – passa o tempo a casar o amor dos outros. 

Desde que o João – o meu – decidiu ser o makes photos, não há dia em que não se fale de casamento nesta casa, mas não há dia nenhum em que se fale do meu. Há sempre duas frases certas nesta nossa nova vida: "Recebi mais um pedido" e  "Todas casam menos eu".

Como eu não dispenso uma história de amor, o João provoca-me. Puxa-me para todos os amores que lhe passam pela lente. Diz-me os nomes, as idades, as profissões. Depois já sou eu que pergunto: pelos detalhes da festa, pelo vestido da noiva, pelas alianças, pela data da sessão de noivado.  Fico presa até ao embrulho do fim da festa, e, depois disso, à espera dos bebés.

E como quanto mais amor entra, mais o meu amor sai, eu saio com ele. Pelo caminho, os noivos partilham comigo (que sirvo essencialmente para distraí-los da pressão da objectiva) conselhos e ideias. Só que como – já adivinham – #todascasammenoseu , não dou nenhum uso ao que aprendo com as festas do amor dos outros. Isso acaba aqui. E começa com o dia em que o João foi fotografar uma despedida de solteira na Comporta. Eram muitas, bonitas, e tinham roupa curta. Pedi vinho enquanto a Blaya as fez dançar. Bem-vindos.

joaomakesphotosnacomporta

Joana.